O feio
"— Coitado! Olhar chega a dar um ruim!"
A conversa estava nas últimas, mas ainda queriam salvá-la. Primeiro, analisaram uma polêmica entrevista recente do Papa. Depois, comentaram guerras e rumores de guerras em países longínquos. Em seguida, palpitaram sobre o mata-mata da Libertadores. Por fim, feito socorrista que põe mais ímpeto nos movimentos finais da reanimação, confrontaram hipotéticos cenários esdrúxulos. Ricardo disse:
— Vocês preferem gabaritar todas as provas que fizerem daqui pra frente ou ganhar R$ 500 por dia até a morte?
Vítor questionou:
— Mato alto chama cobra; quem limpa a casa espera visita: vocês raspam ou não?
Responderam com mais gracejos, riram até dizer chega. Enquanto suspiravam e secavam as lágrimas, Maurício, mais sombrio que de costume após a gargalhada, também apresentou seu desafio:
— E quem sofre mais: mulher feia ou criança com leucemia?
Ricardo e Vítor argumentaram, contra-argumentaram, fizeram distinções sutis como as de um jesuíta comentando Aristóteles, sempre enfáticos e incisivos, sem jamais perder o humor fácil de adulto prestes a virar tiozão.
Marcelo, até ali macambúzio, interveio:
— Nem um nem outro. Na verdade, quem mais sofre é o feio bom de lábia.
Os amigos não entenderam: como pode, se a lábia, tirando o foco do status e da aparência, ajuda a seduzir, permite ao caminhãozinho de quem a possui carregar mais areia do que se previa?
— Aí que vocês se enganam. O sujeito feio, feio de doer, que aprendeu a andar cedo porque ninguém queria no colo, de uma feiúra que não se disfarça com roupa bonita, cabelo cortado, barba na régua, shape em dia, dinheiro no bolso, pode até se aproximar, trocar olhares e toques de duplo sentido com mulher bonita, mas nunca, nunca, jamais chega onde quer chegar. Um sujeito desses sofre como um Tântalo, inveja a mais leucêmica das crianças, a mais horrorosa das mulheres!
— E existe alguém tão feio e tão cheio de lábia? – Ricardo questionou.
— Quem é feio assim não costuma ter autoestima para sair por aí cantando mulher bonita. – Vítor concordou e disse – E, no fim das contas, sempre tem um chinelo velho para um pé cansado.
— O problema é que ele, que existe, é meu conhecido, juro, foi desgraçado com uma terceira maldição: tinha bom gosto. Minto: por um acaso do destino, pensava que tinha bom gosto e que era capaz de sustentá-lo. Por isso o tal pé cansado não queria saber de chinelo velho: exigia múleos papais, saltos de rei da França, tênis de jogador caro.
O pai era metalúrgico, a mãe costureira, e moravam no Guajuviras. Eles comiam bem e se vestiam dignamente, mas sem nada de luxo. Não viajavam, não assinavam TV a cabo, não iam ao cinema nem faziam academia. Não era economia mão-de-vaca: era pela formação do guri, que estudava, sem bolsa nenhuma, no La Salle do Centro.
Ali, rodeado por filhos de gente importante, mais ricos e mais bonitos, que se descobriu feio.
Num intervalo entre períodos, enquanto as professoras conversavam na porta e alguns colegas iam ao banheiro, ouviu o cochicho de duas meninas:
— Como é feio, meu Deus!
— O cabelo…!
— E o nariz?!
— Coitado! Olhar chega a dar um ruim!
E, sem notarem que eram observadas, riam dele.
Dali em frente, aproximou-se de uma delas, pardinha de olhos grandes, cabelo liso, dentes brancos, filha do cacique da câmara municipal.
Como os dois não eram brilhantes, mas dedicados, aproximou-se dela através do estudo. De início, ajudaram-se nas matérias fáceis para um e complicadas para o outro. Então, no crescer da intimidade, ele passou a misturar elogios e zombarias com precisão inesperada em um adolescente.
Ela jurava às amigas que não tinha nem jamais teria nada com aquele malfeito. Mas a convivência diária e prolongada, que parecia uni-los nas provas em dupla, trabalhos em grupo, aulas de educação física, assentos da van, tinha outros planos. Assim se preparava a glória imediata e a queda longínqua do rapaz: agora, era visto de mãos dadas com a moça mais bonita da escola; depois, qualquer outra de igual ou maior beleza, graça e posição lhe parecia acessível, como se a vida tivesse lhe dado passe livre.
Por um, dois anos, brincaram de pega-pega, jogaram vôlei, foram ao cinema, beberam kit com amigos, dançaram coladinhos em bailes de debutante, curtiram juntos festas de formatura. Depois, foram afastados e por fim separados pela rotina de estudo e estágio da faculdade. Mas, para ambos, ficou na memória um romance juvenil em que o desejo se misturava a brincadeiras de criança. Ela, fazendo graça ao ouvir, com a mãozinha de sofrência no peito, sertanejo com as amigas, fingia morrer de saudade do ex; por dentro, às vezes se perguntava o que tinha na cabeça quando aceitou namorar com um menino tão horroroso.
Na UFRGS, foi monitor, fez iniciação científica, além de ajudar informalmente os colegas. Conhecia a sua feiúra: não tinha chance de conquista berrando xavecos em meio a chopadas; precisava de intimidade, convívio prolongado, circunstâncias que mitigassem o susto que sua aparência causava.
Nos laboratórios, bibliotecas, salas vazias, noites en petit comité de colegas próximos, sabia a hora de chegar e sair, falar com naturalidade e graça, não se afobar nos elogios, não se empolgar nas provocações infantis; assim chegava perto de ancas de parideira, vislumbrava seios minoicos, sentia o cheiro bom de cabelos ora crespos, ora lisos, por vezes louros, por vezes negros, mas sempre longos.
Para evitar constrangimentos, buscava horas e locais certos para o último bote. Em varandas, mesas à parte em cafés, cantos distantes em salões, sussurrava ternuras ao pé do ouvido, pousava a mão delicada nas coxas da pretendente, semicerrava os olhos. Quando entreabria o beiço horripilante, as vítimas acordavam do feitiço. Com delicadeza, pois todas o consideravam um amor de guri, viravam o rosto, mudavam de assunto, sugeriam que fossem para outro lugar, que voltassem à roda de conversa. Com riso contrafeito, fingindo naturalidade para não se dar por vencido, ele concordava. Ao voltar para junto dos amigos, não negava nem confirmava os rumores, satisfeito com a aura de sedutor que a dúvida sobre os seus casos lhe dava.
Graduou-se cum laude e foi promovido de estagiário a efetivo em uma grande empresa. Capaz e boa praça, galgava postos, assumia responsabilidades, recebia elogios e prêmios, era designado para viagens Brasil e mundo afora, em que trabalhava com afinco e saía à caça com vigor ainda maior.
Na Argentina e no Chile, nos EUA e na França, no Rio e em São Paulo, ia a bons restaurantes, a festivais de música alternativa, a museus insólitos, conhecidos somente por herdeiras com veleidade de artista. Aproximava-se, era charmoso, bom de conversa; mas, como sempre, o fruto lhe escapava quando ia prestes a abocanhá-lo.
Prosseguia: julgava-se condenado ao êxito. Por isso não pensou duas vezes quando a mãe, ansiosa por netos, tentou aproximá-lo da filha de uma vizinha. A menina era arrumada, mas sem sal, trabalhadora, mas sem ambição, de nariz arrebitado, mas sempre atacado da rinite. Mulher assim não lhe servia: as ignorava feito mendigos insistentes ou crianças que nos mostram a língua na rua.
Seguiu buscando um amor de sangue azul, corpo perfeito, alma elevada, habitué de lugares distintos. Os ventos nunca traziam chuva, obviamente. Por vezes se abalava, bebia além da conta e, com auxílio de uma conhecida de muitas influencers, modelos, atrizes e DJs, arranjava pernoites de alívio. Ato consumado, sentia-se pior: preferia rejeição sincera a lisonja paga.
Chegou aos cinquenta com rosto duro e cabelo cinza. Tinha casa na praia e na serra, renda fixa em moeda forte, carreira digna e sólida. Faltavam-lhe filhos, de que não sentia falta, e uma companhia de mulher. Então insistia nos flertes, deliciando-se, como nos tempos de menino, com a angústia de encontrar, circundar, se aproximar pé ante pé da presa, e entristecendo até o fundo da alma quando, prestes a lhe enfiar as garras, a via escapar do bote com um jogo de corpo.
Pois, aos cinquenta e muitos, voltou a morar em Canoas, em uma mansão em frente ao Lago. Quis levar para lá os pais, mas eles, já velhinhos, eram muito apegados ao velho sobrado onde criaram o filho e passaram a vida.
Por isso atravessava diariamente o Capão, andava pelo calçadão da Farroupilha, dobrava na Boqueirão e seguia até a rua da casa da infância. No caminho, entrava em uma padaria para tomar café e levar pão, frios, cuca e chimia para eles. No caixa, sempre era atendido pela mesma mocinha honesta, trabalhadeira, de sorriso bonito e pele um pouco oleosa, que, à parte este ou aquele detalhe de circunstância, lhe lembrava a primeira namorada.
Ele era, ou pensava ser, charmoso como um galã de Sessão da Tarde paquerando uma mocinha do interior. A moça ria e dava corda aos galanteios, tranquila por não enxergar avanços de um pretendente real, mas gracejos de um velho simpático e impotente.
Comovido, empolgado, ele passou a frequentar a padaria também ao cair da noite, quando mesas começavam a ser recolhidas e a cozinha estava prestes a fechar. Enquanto a moça aguardava o fechamento de caixa, ele fingia mandar áudios no WhatsApp, em conversas que exibiam uma vida opulenta e divertida, mas insinuavam um cansaço de quem muito andou e agora busca um repouso tranquilo.
Com seu instinto limado por décadas de experiência, puxava e esticava assunto com ela, que, benévola e simpática, falava do seu curso, do seu antigo emprego no telemarketing, da sua família, pais velhinhos e irmão adolescente, que morava ali perto.
Ele recebia cada detalhe como se, fumando um cigarro e olhando para o nada, ouvisse as confidências da amante aninhada em seus braços. À noite, antes de dormir, imaginava-se pagando os boletos do curso, encaminhando o futuro do cunhado, agindo com piedade filial em tudo que pudesse ser útil aos sogros idosos. Ao lembrar das conversas, ouvia nitidamente o bater das unhas de gel na tela do Android, via claramente as sobrancelhas arqueadas, deslumbrava-se com o piercing brilhante no nariz de batata, incrustação de prata em joia de ouro.
Após quinze ou vinte dias na mesma toada, não houve contê-lo: atrasou-se alguns minutos para encontrá-la não no caixa, mas a caminho de casa.
Ela levou um susto, depois sorriu ao notá-lo. Ele, tomando o espanto por demonstração de frágil pudor virginal, se entusiasmou.
— Que bom que encontrei o senhor! O mano sempre vem me buscar, mas hoje parece que atrasou. Ou esqueceu de mim, vai saber!?
Ele falava, como em devaneio compartilhado com alguém querido, do céu bonito e ameno, da sua vida feliz mas truncada, dos seus afetos confusos mas intensos. Ela olhava para os lados, como quem presta atenção na rua para não ser pega de surpresa por dois caras em uma moto.
Ele, fascinado com o recato súbito após tantas aberturas, foi para o tudo ou nada: a jogou contra uma parada de ônibus vazia e escancarou a boca para o beijo. Inflamou-se ainda mais quando ela, graciosa e gentil, sorriu sem mostrar os dentes, meneou um não com a cabeça e virou o rosto: a encheu de beijos no cabelo, ombros, pescoço, pulsos com que ela tentava defender-se do atrevimento.
Ela se debateu, berrou, lhe deu tabefes, fez um escândalo que atraiu comerciantes que fechavam as lojas, fez parar ônibus que passavam na rua, vir até o portão senhoras que assistiam ao Datena.
Após um grito de “pega o tarado!”, foi cercado por uma multidão súbita. Uma viatura que fazia ronda por perto foi acionada; quando o irmão da moça já ia abaixando as calças do ferido, um brigadiano atirou para cima, desfez a muvuca e recolheu o moribundo.
Foi levado para o HPS da Mathias. Sobreviveu, mas ficou aleijado: não fala, não anda, não come sozinho. O pai morreu pouco depois. Mora, na casa do Lago, com a mãe e uma cuidadora.
— Vou ter que concordar com o Marcelo. Nem criança leucêmica, nem mulher feia: quem sofre neste mundo é o feio bom de lábia. Se fosse um Tântalo, estaria condenado “apenas” ao eterno limiar do êxito. O caso dele é outro: é um Cristo nas relações. — disse Maurício enquanto bebia o gole derradeiro do chope.
— Lembra mais um governador com sonhos de presidente que, por ter ambições maiores que as vitórias, torna-se um eterno candidato, para não dizer um fracassado e perdedor. — pontuou Ricardo enquanto aproximava o cartão da maquininha.
Vítor, já de pé, conferindo no aplicativo se o Mobi que se aproximava era o seu Uber, sentenciou:
— É pior: é como o time que, por ter passado lotericamente de fase numa copa, abandona os pontos corridos e, depois de eliminado, se vê com os dois pés na Série B.



Eis o nosso Nelson Rodrigues farroupilha
Muito bom! Chimia é sensacional hahaha